imaginrio eixo


Monday, March 31, 2014
Florão d´América

a mulher embala embala seu menino morto; seu corpo o aquece ele até fala: mãe, meu sangue é ralo pouco e roto a mãe quase grita: cala! sustenta o último sopro meus braços são quentes e embalam embalam. mãe, diz o menino, me enterra, estou morto. a mãe sufoca o grito o rosto é magro seco já não há pranto mãe, descansa, pede o menino me tira do teu peito segue outro destino vai parir outro filho que não existo mais a mãe hesita teimosa solene arfante embala embala o filho morto embala e não sofre mais e de tanto proteger a sua cria a mãe esquece o rosto os braços as pernas e vai supondo que está vivo seu menino aguarda dele a promessa de um destino que quando vivo lhe augurou o pai. costurou-lhe dozouto roupas cada qual mais altaneira o quero impávido, colosso! e o tempo foi-se a passar minguou o corpo do menino morto as roupas restaram inteiras com elas, as dezouto, costurou uma bandeira a na cumeeira da casa a desfraldou no ar. tremula á noite ela tem as aves no telhado com quem falar. as aves quedam mudas. são aves e a seu modo cada uma resume o seu cismar um sapo ri no brejo não acredita que aves sóbrias conversem com um pano sujo roto desbotado do telhado a coruja solene no oco do caminho repete eu falei eu falei que o menino não iria vingar o bacurau transido de frio avisa e os olhos arregala tem morto na sala mãe, perguntou com voz fraca o menino morto. sou um travesti da lapa? criança você será de tudo um pouco ninguém verá menino como esse porque você tem fé e orgulho do ventre onde nasceu o menino morto pensa medita pasmado com seu destino mesmo morto terá de existir ainda? mãe, tenho por acaso algum destino? - porque você nasceu em berço esplêndido, apesar de não poder perceber aqui, neste lugar humilde, antes de existir já lhe traçaram a vida não fui eu gostaria que você fosse o meu menino para vigiar sempre e cobri¬-lo em seu sono mas cedo ainda o arrancaram de meu ventre afirmaram: pasmem! não é ilha, é continente, tão rico, tão fértil, tão promisso tragam venham surjam de portugal as suas gentes de outras terras mais e mais acaba de ser descoberto o promissor e eu o perdi filho, que um dia gerei e eu o perdi filho, que um dia chorei e meu pranto foi tão forte tão fecundo que criou os rios que há no mundo os mares que por aí se vão. hoje não choro mais sequei mas filho cumpre sua missão! o filho morto os olhos de susto arregala como morto posso cumprir sinas? e engatinha se arrastando inventa seu caminho pensando que direciona seu destino caminha em cí¬rculos girando o próprio corpo aflito ao tropeçar no seu sentido atento à comandos vãos.

Posted at 09:48 pm by estherlb

 

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rio como o rio.

o presente
futuro
e rio como o rio

marulhando.
o grito dele
vaza o vir

inventou estrelas
desenhou barrancas
pressentiu o sal

mas rio
rio como rio
sempre de passagem.








 




 
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